Parque da juventude

Parque da Juventude – Rosa Kliass

Em março deste ano, fazia apenas 3 meses que eu tinha retornado ao Brasil, e assisti uma palestra empolgante da arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass, no auditório da biblioteca da PucPr. O título da palestra era “Em busca do caráter e do significado no projeto paisagístico”.

Rosa começou nos mostrando parques cheios de significados , que ela conheceu em uma viagem a Israel. Em seguida apresentou 5 de seus projetos pelo Brasil: o paisagismo do Labóratório Fleury em São Paulo, com a praça das águas; o Parque das Esculturas em Salvador na Bahia; o Mangal das Garças em Belém do Pará ; o Parque da lagoa do Abaetè, também em Salvador ; e finalmente o Parque da Juventude em São Paulo.  Apresentando cada um destes projetos ela conseguiu nos passar a forma apaixonante com a qual ela desenvolve seus projetos, buscando os significados dos lugares e transmitindo esses significados através do projeto de paisagismo. Saí da palestra muito empolgada, com o bom sentimento que no Brasil o paisagismo de áreas públicas com qualidade também é possível.

Parque Institucional foto: Carolina Ceres
Parque Institucional (foto: carolina ceres)

Na semana passada tive e oportunidade de ir até São Paulo, e a primeira coisa que quis fazer, foi visitar o Parque da Juventude de Rosa. O parque é resultado de um concurso nacional para um complexo cultural, recreativo e esportivo na área antigamente ocupada pelo Complexo Penitenciario do Carandiru. O projeto vencedor foi apresentado pelo escritório do arquiteto Gian Carlo Gasperini, que chamou a arquiteta Rosa Kliass e sua equipe para prestar consultoria e desenvolver o projeto de paisagismo. Partiu dela então a idéia de dividir o parque em 3 áreas temáticas: o Parque Esportivo , composto por quadras poliesportivas, rampas para a prática de skate e patins , quadras de tenis e pista de cooper   oferecendo atividades gratuitas a população ; o Parque Institucional , que abriga edifícios de caráter cultural como a Biblioteca  de São Paulo e as Escolas Técnicas; e o Parque Central, caracterizado como um verdadeiro parque urbano, com função recreativa-contemplativa, possui trilhas, bancos e elementos que remetem a antiga ocupação da área – o Carandiru. Uma grande “Promenade” central aparece como elemento de união entre as diferentes funções do parque.

Foi caminhando pela Av. Cruzeiro do Sul, vindo da Estação Rodoviária do Tietê, que tive acesso ao Parque. Era cedo, 7 horas da manhã, mas era grande  o fluxo de carros na grande avenida, enquanto nas calçadas poucas pessoas caminhavam. A área é um pouco degradada, como a maioria das áreas em torno as rodoviárias no Brasil. Nas estações de metrô sim, se via muita gente. Cheguei portanto pela área do Parque Institucional, que  pelo fato dos edifícios ainda estarem fechados, estava vazio. Mas era o horário em que as pessoas começavam a sair de casa, e se percebia o fluxo crescente de pessoas atravessando o parque para chegar em outro lugar e das pessoas indo fazer a caminhada matinal. Atravessando o Parque Institucional, com seus edifícios e marquise cheguei no Parque Central, que já estava com seus portões abertos. A sensação ao caminhar pelo parque é de segurança. Pessoas circulam, correm e sentam nos bancos para falar ao celular. Passo pelo portão que separa o Parque de Esportes, onde vejo logo pessoas que jogam tenis. A grande muralha que acompanha o parque lembra as muralhas das antigas cidades medievais, mas daí aparece uma grande pista com rampas para pratica de skate e patins… o que faz lembrar da realidade urbana em que estamos. A área é bem equipada e bem movimentada.

Arqueologia do Contemporâneo ( foto: carolina ceres)
Arqueologia do Contemporâneo ( foto: carolina ceres)

Voltando a caminhar pelo parque central, cheguei em uma passarela de madeira que entra em um bosque de Tipuanas. Encontrei o que Rosa chamou , na sua palestra , de “Arqueologia do Contemporâneo”. Numa forma de manter viva a história daquele lugar, a paisagista projetou uma passarela de madeira, que segue para dentro de um bosque de renaturalização espontanea, onde prevalecem as Tipuanas e pilastras em concreto. Na placa se lê: “As estruturas preservadas neste Parque são resquícios da construção inacabada do que viria a ser o Carandiru II. Com o tempo, a vegetação compôs, espontanemante, uma nova paisagem em volta da muralha, pilares, vigas e lajes. Hoje é possível observar parte desta vegetação, acrescida de novos conjuntos ornameitais. Caminhe apenas sobre o piso de madeira. Ele foi feito para preservar a vegetação.”  Foi aí que pensei sobre a “arqueologia poética” de que tanto me falava Tessa Matteini, durante o curso de paisagismo na Itália, e que nunca imaginei que pudesse encontrar por aqui, no meu “jovem” país. Mas por mais jovem que seja, tem já a sua história. E a história deste lugar, por mais triste que seja, resta assim valorizada, até mesmo para que os erros não sejam esquecidos, e não se volte a falhar.

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